quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Mais uma vez

Mirei teus olhos como quem não tem pressa. 
Examinei-os com afinco tal, que envergonhada me pareceu. 

No fundo deles, por detrás de todo aquele brilho,
Encontrei luz mais intensa que o sol. 

Logo, lançou aquele seu olhar desconfiado
De quem dá confiança pra saber o que vem depois. 

E, então, o seu sorriso. 
Que sorriso!

Ele se abre, com um ar de timidez,
E, rapidamente, se torna imponente.

Impossível de não se notar.
Impossível de não querer provocá-lo sempre. 

Depois, a timidez volta e os lábios se fecham,
Mantendo uma feição de ternura estupenda. 

E é depois disso tudo que, mais uma vez,
Eu me apaixono.

sábado, 8 de outubro de 2016

Amor é egoísta

Amor é bicho bravo.
Quando não quer algo, faz enxame,
Dá chilique e apronta barraco. 

Amor é quase tudo e
De tudo um pouco. 

Mas não é de todos. 

Amor é egoísta. 

Mas, se tem uma coisa que amor não aceita,
É egoísmo. 

Amor é partilha, comunhão, troca. 
Nunca via de mão única. 

Amor é entrega recíproca,
Sem medo, sem julgamentos.

Amor não aceita desaforo.
Amor é temperamental e birrento. 

Aparece e foge num estalar de dedos caso queira.

Amor é quase tudo e
De tudo um pouco.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Uma noite fria

Numa noite fria,
A lua previa
O nosso encontro
Antes de o sol nascer.

O seu riso fácil,
De olhar fechado,
Encontrou um bobo
Que fez-se aparecer.

Com um papo mole,
Cheio de deboche,
Enlacei teu foco.
— Vem me conhecer!

Te chamei de lado,
Dei o meu recado!
— Duas e meia em ponto.
— E se eu não aparecer?

Fiquei encabulado,
Me pôs encurralado.
Mas, quase de sopapo,
Fui logo a responder:

Já é passada a hora,
Venha sem demora.
Estarei lhe esperando,
Não vai se arrepender.

Logo lhe via vindo,
Em veste azul clarinho.
Teus olhos mirei, rindo:
— O que eu vou dizer?

Ao beijar-te a boca,
Disse a lua, rouca:
— Espero mais um pouco
Pro dia amanhecer.

E, hoje, quem diria
Que aquela noite fria
Daria como resultado
O nosso bem querer?

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Aquele mesmo olhar

Miro teus olhos já cansados.
Prostrados, tantas vezes os vi.
Teu cansaço contrasta a agilidade de outrora.

Éramos amantes ferozes, intensos;
Hoje, nos amamos tenros.

Os longos beijos se foram
E deram lugar a singelos e inebriantes olhares.
A lucidez de teus olhos ainda é
E sempre será minha luz.

Contigo aprendi a amar e
O amor apreender.

Há 50 anos vi teu olhar juvenil,
Calmo e brilhante.
E, ainda agora, vejo, ao mirar-te,
Aquele mesmo olhar.

A paixão de jovens é, agora, amor maduro.

Nossos corpos,
Já cheios de marcas da vida,
São apenas moldura para a obra-prima de nossas almas.

E, dos que dizem já estarmos velhos,
Discordo ferozmente.
Afinal, olhar não envelhece.


domingo, 7 de agosto de 2016

Vem ver a banda passar

Desse logo desse apê, 
Tá na hora de ir ver
A banda passar pela praça. 

Não se limite a viver
Enfurnado no seu mundo
Deixando a vida passar.

Se estiver difícil, estou
Sempre aqui pra ajudar.
Deixa a tristeza pra depois,
Vem comigo se esbaldar. 

A vida é muito curta e muito bela
Pra jogar fora com tristeza. 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Antes de dormir

Cola teu rosto no meu. 
Afaga suas mágoas e decepções em mim.
Conta seu dia, suas coisas, suas besteiras.

Vamos conversar horas, perder o tempo 
E a hora de ir embora. 
Afinal, pra que ir embora?

Vamos fazer planos, imaginar viagens.
A maioria nem se concretizará,
Mas o que importa?
Só de imaginar isso tudo com você já fico feliz.

Cola teu ouvido na minha boca
Pra eu prometer mundos
E falar sacanagem. 

Cola teu corpo no meu
Pra sentirmos um ao outro
E termos os corações colados. 

Gruda sua boca na minha,
Seu olhar no meu,
Sua alma na minha. 

Vamos comemorar qualquer data boba
Pelo simples fato de fazer ficarmos juntos. 

Dorme bem, sonha comigo e boa noite. 
Beijos.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Poema Aleatório #44

Dia desses lembrei de nós.

Despretensioso, ri dos planos feitos.
Como era bom planejar uma vida com tão pouca idade.

Lembrei do início, do sorriso despertado.
Lembrei do frio na barriga, da mão gelada.

Já achei que daria um bom livro a história toda.
Já escrevi alguns parágrafos, mas...

Lembro-me também do fim.
Ainda tento entendê-lo.

Não me culpes.
Fugi, num súbito egoísta.
Hoje é um pouco mais claro.

O tempo rugiu, as vidraças quebraram e me vi,
De repente,
No meio de um furacão.

Fugir era mais fácil, mais simples.
Mais tolo.

Mas fomos dois plenamente,
Não eternamente.