sexta-feira, 10 de junho de 2016

O melhor vem antes do beijo

Há quem diga que o beijo é o desfecho perfeito
Para o encontro de um casal.

Divirjo num ponto crucial: a magia do quase.

Antes do beijo tudo é dúvida,
Tudo é expectativa e imaginação.
Antes do beijo é água na boca,
É a incerteza mais gostosa.

Os lábios quase se encostam.
Os olhos se beijam loucamente.

A respiração acelera, os batimentos enlouquecem.
Sobe um frio na espinha, desce um calor maluco.

Juras de amor e paixão são ditas ao pé do ouvido
Com a voz de amante intenso.

Na sincronia dos movimentos dos rostos,
O quase se torna eminente e tudo potencializa.
As mãos tocam os rostos um do outro,
Os corpos grudam com a super cola da atração
E nada mais importa.

Pouco importa quem passa, que horas são,
O trabalho, a dor...
Nada.

O beijo é o ato final de um espetáculo de calores,
Sentimentos, imaginação e loucura.

Há quem diga que o beijo é o desfecho perfeito
Para o encontro de um casal.
Prefiro pensar que
O melhor vem antes do beijo.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Leve e calma

Num instante os olhos se cruzam.
Os lábios se tocam,
Os braços se entrelaçam 
E os corpos se juntam.

O mundo lá fora parou,
As luzes diminuem
E a penumbra é perfeita.

Os longos beijos encurtam-se
E os olhares se prolongam.

Miro teu corpo como que fotografando cada milímetro,
Acaricio-te como se fosse a última vez.

Percorro tua pele com beijos
Até seu pescoço insinuante.
Sinto contorcer teu corpo e fechar teus olhos.
Ajeito seus cabelos para desnudar tua nuca.
Arrepia teu corpo numa onda de calor.

Tuas costas, entregues à loucura,
Não se aguentam e se viram.
Teus flancos, reagem ao mínimo toque.

Daqui pra frente não me lembro mais.
Alguns relâmpagos de memória vêm e vão.

A memória volta perfeita no abraço derradeiro.
Você pousada sobre meu peito num sono tenro e profundo.
Leve e calma.

domingo, 5 de junho de 2016

Os olhos mentem

Naqueles dois sóis ele via
Esplendorosos girassóis
Seguindo a luz solar por onde ela ia.
Naqueles olhos castanhos, 
Tais quais o tronco de um carvalho antigo,
Achou abrigo para sua busca. 

Ele achava que os olhos eram espelho d'alma.
Pautava-se na anatomia do nervo óptico,
Na fisiologia da visão,
Na poesia da antiga tradição. 

Dizia, fagueiro e ligeiro, pra quem quisesse ouvir:
"Os olhos são verdade, não importa
O quanto as pessoas mentir tentem".
Mal sabia ele que o único defeito dos olhos
É que eles também mentem. 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Algumas notas sobre nós

Éramos dois estranhos conhecidos;
Batemos pela vida até nos encontrarmos;
Não falou 81, ganhei-lhe um beijo;
Daquele banco, o pedaço de cerâmica não se esquece;
O olhar que não deixa estudar;
Daquele boné não me esqueço mais;
Das idas e vindas, prefiro as vindas;
Nos dias amanhecidos, a surpresa da hora ligeira;
Das tristezas, a última;
Os sonhos viraram insônia;
Aquela caixa de chicletes ainda guardo comigo;
A foto única é, às vezes, abrigo;
Meus devaneios, já não os tenho visto;
De seus olhos, não me olvido.

domingo, 29 de maio de 2016

Domingo de noite

Domingo de noite é aquela agonia.
Acaba o Fantástico, melancolia.
Um sincício de sensações,
De emoções e de paixões.

A saudade aumenta; a fome, também.
O choro quer vir, mas o riso não deixa.
O amor vem fluir sentimentos de gaveta.

Domingo de noite é assim:
Uma dor que arde sem se ver,
A saudade de um bem querer.
Se é fim ou início? Não sei dizer.

domingo, 22 de maio de 2016

Caixa preta

Das tantas verdades acerca do amor,
Apenas uma e somente uma é a mais verdadeira de todas.
Amar é ganhar asas, é poder flutuar acima das nuvens.

Amar é como pilotar um avião.

Assim como na aviação, no amor, a gente começa aprendendo.
Primeiro, são aeronaves pequenas, pouco potentes e com poucos
Ou nenhum passageiro.

Assim como no amor, na aviação, o piloto vai galgando maiores aeronaves
Até chegar, um dia, a pilotar um jumbo.

Assim como na aviação, também, no amor, são dois.
Um piloto e um copiloto.
Mas sem hierarquia, sem poderes a mais ou a menos.
São dois para garantir o voo.
São dois pra que, na falta de um, o avião não caia.

Todavia, a maior sacada de semelhança entre amor e avião
É a caixa preta.

Nenhum avião cai por conta de um erro.
Ninguém morre por conta de um erro.
Ninguém sofre ou chora por conta de um erro.
São vários, na maioria das vezes, pequeninos erros que,
Quando juntos, são catástrofe.

E com toda catástrofe vem dor, sofrimento, choro.
Alguma coisa sempre morre, se fere ou se perde.

Pra evitar tudo isso, temos a caixa preta:
Pra recordar tudo que fizemos ou deixamos de fazer,
Tudo o que falamos ou não,
Tudo o que sentimos ou ignoramos.

Isso tudo pra que, quando o avião caia,
O sofrimento não seja em vão.
Isso tudo pra que ganhemos sabedoria para alçar novos voos.

O amor dá asas de fato.
O amor nos faz flutuar entre as nuvens de fato.
O amor é das coisas mais lindas que existem assim como voar.
Contudo, ambos exigem algo que nem todos têm ou podem ter:
Coragem.


Só voa e só ama quem não tem medo de cair.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Porque escrevo

         Então é madrugada e você inventa de ouvir uma música qualquer na internet. Aparece Cássia Eller na playlist e vem o pensamento "que mal faria?". Escolhe uma música inofensiva e pronto: ela não sai mais da cabeça. Quem dera fosse música ruim, pois o próprio bom senso trataria de excluí-la do HD musical. Mas não! É uma música foda que gruda e faz lembrar de muita coisa. Além disso, traz junto uma sensação de que tudo vai dar certo e de que todas as esperanças alimentadas por nós serão correspondidas. E a vontade de escrever extrapola a resistência do racionalismo barato ao qual nos impomos.
        E um bocado de reflexões explodem e, junto com elas, muito do que a gente sente e pensa explode também. As fotos que não traziam tanta coisa voltam a ensopar a gente de lembranças. E essas nos resgatam aos nossos eus de tempos atrás. E esses eus passados nos mostram que não somos tão diferentes como pensamos. As angústias, os sonhos, os medos: tudo isso volta. E como volta! 
           Ainda somos crianças. Sabemos muito pouco desse mundo de meu Deus. E, se sabemos pouco sobre o mundo, imaginem o que sabemos de nós mesmos! Ou pior, do amor.Nos dizemos sábios, impenetráveis sentimentalmente, muros de frieza e de racionalidade. No fundo, todos somos crianças assustadas com os trovões da vida. Bem no fundo, ainda somos frágeis, inocentes, pequenos. Ainda somos muito menos que um grão de areia nos deserto.
           Sentimo-nos com todo o garbo e a elegância que o mundo pode oferecer, temos reis na barriga, somos mais que o resto, somos melhores que a média. No final, apenas pó e saudade seremos. E nada disso que foi tão importante e essencial vai importar. Seremos espectros, espíritos, almas no paraíso, almas no inferno ou nada. 
         Todos começamos num encontro de gametas, todos precisamos de ar, da água, de alimento. É muita prepotência achar que é melhor que alguém. É muito triste achar que é pior que alguém. É importante lembrar que quem não se ama não pode amar o próximo. Vai ver a solução pros problemas é aprendermos a nos amarmos mais. Ser miserável não é desculpa pra tornar a vida dos outros miserável.
           Essa viagem toda por uma música, por alguns minutos. E foram os melhores em muito tempo. Deixe a mente fluir. Escolha uma boa música, pense em alguém ou fique no escuro. Tudo isso amo mesmo tempo também pode. Abra-se pra si mesmo! Permita-se! Seja você para você por alguns minutos ao menos.

Victor da Silva Neris